Como não consegui encontrar o vídeo exibido na exposição completo, transcrevo abaixo todo o diálogo nele contido:
Personagens do vídeo da
exposição “Menos – O certo do errado, o errado do certo”.
Norma, a Camaleoa
É preciso saber gramática para falar e escrever bem? É preciso seguir
as regras e o vocabulário certo? A língua é um organismo vivo? Língua é poder?
Não tem certo e errado, tem o adequado para cada momento? O importante é saber
se comunicar? Dentro da própria língua, há tensões e conflitos de visão de
quatro sistemas: a norma gramatical, a norma lexical, a norma semântica e a
norma discursiva.
No vídeo Norma, a camaleoa, a atriz Alessandra Colassanti, filha dos
escritores Affonso Romano de Sant'Anna e Marina Colasanti, encarna as quatro
normas da língua portuguesa ao mesmo tempo, apresentando-as e discutindo-as. O
encontro fictício das "Normas" se dá no banheiro do museu, que o
visitante observa atrás dos espelhos. Entre um retoque de maquiagem e uma
ajeitada no cabelo, elas discutem que, ao operar com as regras em nosso
cotidiano, podemos selecionar formas aceitas ou formas rejeitadas pela
sociedade. Cada sistema abriga tanto o certo quanto o errado.
Mas as normas são quatro ou são uma só? Elas são tudo isso ao mesmo
tempo. Elas são quatro em uma, quando uma mesma expressão apresenta problemas
oriundos dos quatro sistemas. Elas são uma em quatro, quando o erro vem de um
sistema só. De qualquer forma, não há dúvida que Norma é uma camaleoa.
Norma Helena = norma gramatical
Norma Brigite = norma lexical
Norma Lígia = norma semântica
Norma Maria = norma discursiva
DIÁLOGO:
Norma Helena
- Onde eu vim parar! Uma exposição sobre língua portuguesa chamada
MENAS?! Só pode ser piada... E de mau gosto!
Norma Lígia
- Quem diria, a língua do povo virou exposição... Antes tarde do que
nunca.
Norma Helena
- Você está maluca? Esta exposição relativiza erros do português e
você acha isso certo? Nossa língua é muito complexa e as pessoas precisam
aprender a falar e escrever direito, com todas as regras. Gramática, minha
filha!
Norma Brigite
- As pessoas têm essa ideia de que o português é difícil. Mas isso é
uma bobagem. Só prejudica o aprendizado da língua.
Norma Helena
- É uma questão de educação. Quem não tem acesso a uma boa educação
não sabe falar e escrever. Isso é um fato.
Norma Brigite
Pelo amor de Deus, não existe língua difícil, senão ninguém falava húngaro,
chinês ou guarani. E essas línguas são faladas por milhares de pessoas,
inclusive por gente que não sabe ler nem escrever.
Norma Maria (fala ao fundo, ao telefone)
- Menino, você não sabe da maior, isso aqui tá ótimo. Boca livre
total, champanhe de graça, comida grã-fina, uma beleza!!!
Norma Lígia
- Elas sabem a língua, do jeito delas.
Norma Helena
- Olha só, como é o seu nome?
Norma Brigite
- É Norma. Norma Brigite.
Norma Helena
-Então presta atenção no que eu estou falando: não existe o sem-terra?
Então também existe o sem-língua! É preciso fazer a distribuição da língua
portuguesa por meio da escola. Dar a língua aos sem-língua!
Norma Lígia
- Gente, vocês repararam naquele cara de camisa verde com um chapéu
panamá? Acho que conheço ele de algum lugar. Ele é o curador da exposição?
Norma Maria
- Não sei. Não conheço ele não.
Norma Helena
- Não o conheço.
Norma Brigite
- Eu também não.
Norma Helena
- Falei “não o conheço”,
que é a maneira certa de falar. Não é: “não conheço ele”. Até porque não foi isso que eu quis dizer. Eu
o conheço. Ele é primo de uma amiga minha do clube.
Norma Brigite
- Se ela tivesse escrevendo uma carta, sei lá, pro Papa, aí sim teria
que usar o pronome oblíquo, mas falando?! Me poupe!
Norma Helena
- Olha você sabe o que é um pronome oblíquo! Já é alguma coisa, pelo
menos não é uma sem-língua...
Norma Lígia
-Mas todo mundo tem língua. Mesmo quem não sabe escrever sabe falar
português. Isso você não pode negar.
Norma Maria
- Até porque o termo pra definir quem não sabe escrever é analfabeto,
mas não existe uma palavra pra designar quem não sabe falar. A fala é natural,
a escrita não.
Norma Brigite
- Mas é isso mesmo, a língua é mutante...
Norma Helena
- A língua não é um mutante coisíssima nenhuma, ela tem regras. É para
isso que existe a gramática: fixar as regras. Por isso que aprendemos português
na escola.
Norma Brigite (olhando-se no espelho)
- Meu cabelo tá horrível...
Norma Lígia
- Relaxa... Com esse tempo, não tem cabelo que resista.
Norma Maria (para provocar Norma Helena)
- Tá se achando a dona do português, é? Gramática não é tudo na vida,
não. Ninguém manda no português, o português é do povo!
Norma Maria (para Norma Brigite)
- Bunito, seu cabelo!
Norma Helena
- Fala direito, moça. Não é bunito, é bonito. E o cabelo dela pode ser muito radical, mas não é
exatamente bonito.
Norma Lígia
- A língua é um organismo vivo, a própria gramática aos poucos vai
absorvendo os usos do que se fala.
Norma Brigite
- Como já dizia o grande Raul Seixas: “Não tem certo nem errado, todo
mundo tem razão. O ponto de vista é que é o ponto da questão”.
Norma Brigite
- Taí uma coisa em que a escola tá errada: o professor às vezes obriga
o aluno a falar do jeito que se escreve, brigando com quem fala bunito, muleque, bêjo ou iscada. Mas isso é um fenômeno de
variação fonética, existe em toda língua.
Norma Lígia
- O justo seria dizer que a pessoa pode falar bunito, mas tem que escrever bonito. Até porque o sentido dos dois
é o mesmo.
Norma Helena
- Falando em sentido, eu sinto muito, mas as coisas têm que ser
exatamente como elas são.
Norma Lígia (indicando que a norma semântica se preocupa
com os significados do que se diz e do que não se diz)
- Mas a vida não é assim, a vida é uma adolescente inconstante, que
muda o tempo todo para se adaptar às situações.
Norma Brigite
- É que nem a partitura de uma música, que é uma indicação, mas cada
músico toca de um jeito diferente.
Norma Helena
- Por favor, vocês são todas anarquistas. É preciso saber GRAMÁTICA
para falar e escrever bem! É preciso seguir as REGRAS e o vocabulário certo.
Norma Brigite
- Isso não é totalmente verdade. As palavras e mesmo as estruturas
gramaticais inventadas têm espaço na literatura. Eu amo Guimarães Rosa e o que
o cara mais fez foi inventar palavra...
(Norma Brigite e Norma Lígia
citam palavras “inventadas” por Guimarães Rosa em tom de brincadeira.)
Norma Lígia
- “Ufanático”, “bramosa”...
Norma Brigite
- “Chuchurro”, “mirifácia”...
Norma Lígia
- “Druxo”...
Norma Brigite
- “Tutaméia”...
Norma Lígia
- “Pirlimpsiquice”, “Hitlerocidade”...
Norma Brigite
- “Embriagatinhava”... Falar é muito perigoso!
Norma Lígia
- Mas pode ser muito divertido também.
Norma Lígia
- As primeiras gramáticas do ocidente, as gregas, só foram escritas no
século II antes de Cristo, mas muito antes disso já existia na Grécia uma
literatura ótima e superelaborada, como a Ilíada, a Odisséia, os diálogos de
Platão.
Norma Brigite
- A gramática vem depois da língua. É uma consequência da língua e não
o contrário.
Norma Maria (falando no telefone)
- Boa noite, doutor Vieira, o senhor conseguiu checar os documentos
que deixei sobre a sua mesa? Claro. Exatamente. Farei isso amanhã. (pausa) Não
se preocupe. Impreterivelmente. Claro. Boa noite.
Norma Helena (para Norma Maria)
- Diga-me uma coisa: se você sabe falar direito, porque fala errado?
Norma Maria
- Não tem certo e errado. Tem o adequado pra cada momento. Eu não
posso falar com meu chefe, o desembargador, como eu falo com vocês. E também
não preciso falar com vocês do mesmo jeito que eu falo com ele. Aqui, eu
escolhi o registro popular, justamente porque estamos num banheiro. Isso é meio
óbvio, não é?
Norma Lígia
- Claro, são tipos diferentes de registro. O formal e o informal.
Norma Brigite
- E o banheiro é informal.
Norma Maria
- E você tem que saber em que momento pode usar cada um deles. E isso
é uma coisa intuitiva.
Norma Lígia
- É verdade, eu escrevo livro pra criança e elas sabem direitinho
quando podem falar mais livremente e quando têm que falar mais sério. Não
precisa explicar.
Norma Helena
- É, pode ser. Finalmente estamos concordando.
Norma Brigite
- E o legal é que isso tá bem refletido nessa exposição. Até eu
consegui entender.
Norma Lígia
- Que bobagem, por que você não ia entender? Quando você fala assim,
fica subentendido que você nunca entende nada.
Norma Maria
- O importante é saber se comunicar. Afinal, como dizia o Chacrinha,
quem não se comunica...
Norma Brigite
- Se trumbica!
Norma Lígia
- Falar dentro da norma culta seria um bônus, não uma obrigação. Pelo
menos é assim que eu vejo.
Norma Brigite
- Até porque a norma culta de hoje também já foi diferente, a língua
que falamos atualmente é uma consequência de várias línguas que formaram o
português, desde o início. (pausa) Preciso
fazer xixi de novo.
Norma Helena
Não foram tantas línguas assim. A base do português é o latim, que
chegou com o Império Romano.
Norma Lígia
- É, mas a gente tem palavras do árabe, por causa do domínio árabe
sobre Portugal, tem palavras germânicas...
Norma Maria
- Isso é a prova de que a língua evolui!
Norma Lígia
- Não dá pra forçar uma barra, engessar a língua. Porque ela é
justamente um fluxo contínuo, um rio caudaloso!
Norma Brigite
- Nossa, que lindo isso!
Norma Maria
- Ai, meninas, o papo tá muito bom, mas eu acho que vou voltar pra lá.
Quero assistir o vídeo da exposição.
Norma Helena
- Assistir ao vídeo da
exposição, você quer dizer. Ou por acaso você acha que ele está precisando de
ajuda?
Norma Lígia
- É que esse “assistir” transitivo direto que você usou pode
significar ajudar mesmo, dar assistência...
Norma Brigite
- Ai, gente, não adianta, o professor pode obrigar o aluno a copiar
quinhentas mil vezes a frase: assisti ao
filme. Quando ele puser o pé fora da sala, ele vai dizer ao amigo: ainda
não assisti o filme do Sherlock Holmes.
Norma Lígia
- É que a gramática brasileira não sente necessidade da preposição,
que era exigida na norma culta há séculos.
Norma Maria
- Se você diz “o filme foi assistido” na voz passiva é porque a língua
já toma o verbo como transitivo direto. É a mesma coisa que você querer falar,
ainda hoje, do jeito como foi escrita a Carta do Pero Vaz de Caminha...
Norma Lígia
- A verdade é que saber uma língua abre horizontes, amplia as
possibilidades simbólicas que uma pessoa tem pra enxergar a vida.
Norma Helena
- Mas não basta saber falar. É na sintaxe dominante que são escritos
os contratos e as leis, uma prova de que a língua é poder.
Norma Brigite
- A gente não tá dizendo que não se deva aprender a norma culta do
português. Saber as regras é ter mais opções de uso da língua, o que é importante
em muitos momentos.
Norma Maria
- Bom, quanto mais opções o sujeito tiver de usar a língua, mais ele
vai poder se desenvolver como cidadão.
Norma Lígia
- Meninas, a gente tá nesse banheiro há horas. Vamos voltar pra
exposição?
Norma Maria
- Puxa, eu gostei tanto de vocês. Vamos marcar de se ver outro dia?
Norma Helena
- Olha, eu apesar de tudo também gostei de vocês. Mas deixa eu dizer
uma coisa: nós vamos marcar de nos ver.
“Vamos marcar de se ver” é uma mistura de pessoas na mesma frase.
Norma Brigite
- Ai, tá bom, vamos marcar de nos
ver, então.
(Todas riem e tiram seus
acessórios de caracterização)
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