terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Morte e Vida Severina

João Cabral de Melo criou esse auto de natal, que foi publicado originalmente em 1956, revelando a vida e a morte de tantos Severinos, retirantes. Sua mensagem deve ser motivo de profunda reflexão! 

Adaptada pelo cartunista Miguel Falcão para os quadrinhos, foi transformada depois em um desenho animado que revela toda a aspereza da dura caminhada de um retirante nordestino.

Mesmo tendo uma longa duração, afinal são 56 minutos, vale muito a pena assistir integralmente!

Abaixo do vídeo, segue link do texto escrito dessa importante obra.


http://www.culturabrasil.org/zip/mortevidaseverina.pdf

sábado, 7 de dezembro de 2013

Para Adélia Prado, a poesia vem da “terceira margem da alma”.

A poesia, para Ferreira Gullar, nasce de um espanto. Já para Adélia Prado, ela vem da “terceira margem da alma”. Ambos concordam, porém, que os momentos inspirados vêm subitamente, sem controle, reservando ao poeta a função de instrumento para decodificá-los em versos.

Miserere chega às livrarias nesta quinta-feira...

Leia: Adelia Prado

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Lygia Fagundes Teles - Obra incrível!!! Uma pequena amostra:

VENHA VER O PÔR-DO-SOL
Lygia Fagundes Telles

Ela subiu sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde.
Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinha um jeito jovial de estudante.
- Minha querida Raquel.
Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos.
- Veja que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do táxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima.
Ele riu entre malicioso e ingênuo.
- Jamais? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância! Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete léguas, lembra?
-  Foi para me dizer isso que você me fez subir até aqui? – perguntou ela, guardando as luvas na bolsa. Tirou um cigarro. - Hein?!
-  Ah, Raquel... - e ele tomou-a pelo braço. Você, está uma coisa de linda. E fuma agora uns cigarrinhos pilantras, azul e dourado... Juro que eu tinha que ver ainda uma vez toda essa beleza, sentir esse perfume. Então? Fiz mal?
-  Podia ter escolhido um outro lugar, não? -Abrandara a voz. - E que é isso aí? Um cemitério?
Ele voltou-se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela ferrugem.
- Cemitério abandonado, meu anjo. Vivos e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha aí como as criancinhas brincam sem medo acrescentou apontando as crianças na sua ciranda.
Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro.
- Ricardo e suas ideias. E agora? Qual o programa?
Brandamente ele a tomou pela cintura.
- Conheço bem tudo isso, minha gente está, enterrada aí. Vamos entrar um instante e te mostrarei o pôr-do-sol mais lindo do mundo.
Ela encarou-o um instante. Envergou a cabeça para trás numa risada.
- Ver o pôr-do-sol!... Ali, meu Deus... Fabuloso, fabuloso!... Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr-do-sol num cemitério...
Ele riu também, afetando encabulamento como um menino pilhado em falta.
- Raquel, minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura...
- E você acha que eu iria?
- Não se zangue, sei que não iria, você está sendo fidelíssima.
Então pensei, se pudéssemos conversar um pouco numa rua afastada... - disse ele, aproximando-se mais. Acariciou-lhe o braço com as pontas dos dedos. Ficou sério. E aos poucos, inúmeras rugazinhas foram-se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta. Não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas logo sorriu e a rede de rugas desapareceu sem deixar vestígio.
Voltou-lhe novamente o ar inexperiente e meio desatento. – Você fez bem em vir.
- Quer dizer que o programa... E não podíamos tomar alguma coisa num bar?
- Estou sem dinheiro, meu anjo, vê se entende.
- Mas eu pago.
- Com o dinheiro dele? Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é de graça e muito decente, não pode haver um passeio mais decente, não concorda comigo? Até romântico.
Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava.
- Foi um risco enorme, Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos pilha juntos, então sim, quero só ver se alguma das suas fabulosas ideias vai me consertar a vida.
- Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado – prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. - Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.
- É um risco enorme, já disse. Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros.
-  Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quantas vezes preciso repetir a mesma coisa?! Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo.
O mato rasteiro dominava tudo. E não satisfeito de ter-se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrara-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira as alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos, medalhões de retratos esmaltados.
- É imenso, hein? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, que deprimente - exclamou ela, atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada. – Vamos embora, Ricardo, chega.
- Ali, Raquel, olha um pouco para esta tarde! Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da noite, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambiguidade. Estou-lhe dando um crepúsculo numa bandeja, e você se queixa.
- Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre.
Delicadamente ele beijou-lhe a mão.
- Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.
- É, mas fiz mal. Pode ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais.
- Ele é tão rico assim?
- Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro...
Ele apanhou um pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente escureceu, envelhecida. Mas logo o sorriso reapareceu e as rugazinhas sumiram.
- Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?
Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo.
- Sabe, Ricardo, acho que você é mesmo meio tantã... Mas apesar de tudo, tenho às vezes saudade daquele tempo. Que ano aquele! Quando penso, não entendo como aguentei tanto, imagine, um ano!
- É que você tinha lido A Dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance você está lendo agora?
- Nenhum - respondeu ela, franzindo os lábios. Deteve-se para ler a inscrição de uma laje despedaçada: minha querida esposa, eternas saudades - leu em voz baixa. - Pois sim. Durou pouco essa eternidade.
Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido.
- Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja - disse apontando uma sepultura
fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda -, o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas... Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso.
Ela aconchegou-se mais a ele. Bocejou.
- Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim. - Deu-lhe um rápido beijo na face.
-Chega, Ricardo, quero ir embora.
- Mais alguns passos...
- Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros! -
Olhou para trás. - Nunca andei tanto, Ricardo, vou ficar exausta.
- A boa vida te deixou preguiçosa? Que feio - lamentou ele, impelindo-a para a frente. - Dobrando esta alameda, fica o jazigo da minha gente, é de lá que se vê o pôr-do-sol. Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai.Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos
dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas.
- Sua prima também?
- Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos... Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas... Penso agora que toda a beleza-dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.
-  Vocês se amaram?
-  Ela me amou. Foi a única criatura que... Fez um gesto. - Enfim, não tem importância.
Raquel tirou-lhe o cigarro, tragou e depois devolveu-o.
- Eu gostei de você, Ricardo.'
-E eu te amei.. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?
Um pássaro rompeu cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu.
- Esfriou, não? Vamos embora.
- Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos.
Pararam diante de uma capelinha coberta: de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par.
A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo.
Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de um
manto que alguém colocara sobre os ombros do Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de pedra, descendo em caracol para a catacumba.
Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da capelinha.
-  Que triste que é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui?
Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira. Sorriu, melancólico.
- Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação, certo? Mas já disse que o que mais amo neste cemitério é precisamente este abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta.
Ela adiantou-se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semiobscuridade do subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento.
- E lá embaixo?
- Pois lá estão as gavetas. E, nas gavetas, minhas raízes. Pó, meu anjo, pó - murmurou ele. Abriu a portinhola e desceu a escada.
Aproximou-se de uma gaveta no centro da parede, segurando firme na alça de bronze, como se fosse puxá-la. - A cômoda de pedra. Não é grandiosa?
Detendo-se no topo da escada, ela inclinou-se mais para ver melhor.
- Todas essas gavetas estão cheias?
- Cheias?... Só as que têm o retrato e a inscrição, está vendo? Nesta está o retrato da minha mãe, aqui ficou minha mãe - prosseguiu ele, tocando com as pontas dos dedos num medalhão esmaltado embutido no centro da gaveta.
. Ela cruzou os braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz.
- Vamos, Ricardo, vamos.
- Você está com medo.
- Claro que não, estou é com frio. Suba e vamos embora, estou com frio!
Ele não respondeu. Adiantara-se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo. Inclinou-se para o medalhão frouxamente iluminado.
- A priminha Maria Emília. Lembro-me até do dia em que tirou esse retrato, duas semanas antes de morrer... Prendeu os cabelos com uma fita azul e veio se exibir, estou bonita? Estou bonita?... - Falava agora consigo mesmo, doce e gravemente. - Não é que fosse bonita, mas os olhos... Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.
Ela desceu a escada, encolhendo-se para não esbarrar em nada.
- Que frio faz aqui. E que escuro, não estou enxergando !
Acendendo outro fósforo, ele ofereceu-o à companheira.
- Pegue, dá para ver muito bem... - Afastou-se para o lado. -
Repare nos olhos.
- Mas está tão desbotado, mal se vê que é uma moça... - Antes da chama se apagar, aproximou-a da inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente. - Maria Emília, nascida em vinte de maio de mil e oitocentos e falecida... - Deixou cair o palito e ficou um instante imóvel. - Mas esta não podia ser sua namorada, morreu há mais de cem anos ! Seu menti...
Um baque metálico decepou-lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor.
A peça estava deserta. Voltou o olhar para a escada. No topo,
Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada. Tinha seu sorriso – meio inocente, meio malicioso.
- Isto nunca foi o jazigo da sua família, seu mentiroso! Brincadeira mais cretina! - exclamou ela, subindo rapidamente a escada. - Não tem graça nenhuma, ouviu?
Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás.
-  Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! - ordenou, torcendo o trinco. - Detesto este tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida!
- Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta tem uma frincha na porta. Depois vai se afastando devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr-do-sol mais belo do mundo.
Ela sacudia a portinhola.
- Ricardo, chega, já disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente! - Sacudiu a portinhola com mais força ainda, agarrou-se a ela, dependurando-se por entre as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso. - Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra...
Ele já não sorria. Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram as rugazinhas abertas em leque.
-  Boa noite, Raquel..
-  Chega, Ricardo! Você vai me pagar!... - gritou ela, estendendo os braços por entre as grades, tentando agarrá-lo. - Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos! - exigiu, examinando a fechadura nova em folha. -Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou-o, apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi escorregando. -Não, não...
Voltado ainda para ela, ele chegara até a porta e abriu os braços. Foi puxando, as duas folhas escancaradas.
- Boa noite, meu anjo.
Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se, entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida.
- Não..
Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido.: No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano:
-  NÃO!
Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de, um animal sendo, estraçalhado.
Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento.

Nenhum ouvido humano escutaria agora, qualquer chamado. –Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda.

domingo, 24 de novembro de 2013

Ferreira Gullar - Um poeta apresentando sua obra...

Não tenho dúvida de que Ferreira Gullar fará parte do cânone da Literatura Brasileira, quando houver uma atualização. Hoje, aos 83 anos, continua produzindo arte e vida. Embora esse vídeo tenha sido exibido antes de ele completar 80 anos, vale a pena ser visto.





O açúcar

O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.

Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.

Em lugares distantes, onde não há hospital
nem escola,
homens que não sabem ler e morrem de fome
aos 27 anos
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.

Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema. 

(Dentro da Noite Veloz, 1975)


Programa Encontro Marcado com a Arte, exibido pela TV Educativa, gravado em 1996.

Nesta entrevista Ferreira Gullar fala sobre sua paixão pelas artes, poesia, infância e exílio.



sábado, 9 de novembro de 2013

Pesquisa sobre o blog

Queridos alunos, preencham essa pesquisa do blog para que tenhamos mais uma ferramenta que possibilite a construção do conhecimento de forma interessante e interativa. Se você que está visitando minha página também quiser colaborar, fique à vontade...

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

João Cabral de Melo Neto é parte integrante do meu Projeto de Iniciação Científica "O discurso religioso como instrumento de manipulação" e eu não poderia deixá-lo de fora do meu blog.

Rios sem discurso

Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.

João Cabral de Melo Neto

No dia seguinte ao aniversário de morte desse grande artista, faço questão de divulgar sua linda obra "Morte e vida Severina" em desenho animado. É um vídeo especial, vale a pena assistir!!! http://www.youtube.com/watch?v=rrhh_w75XMU

João Cabral de Melo Neto

"...E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina."
(Morte e Vida Severina)


Discurso proferido por Arnaldo Niskier, presidente da Academia Brasileira de Letras, por ocasião da morte do poeta, em 09/10/99:


"Adeus a João Cabral"
"Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, Severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva."

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Exposição "Menas" - Museu da Língua Portuguesa

Olá! Infelizmente não visitei essa exposição, mas o tema é interessantíssimo e o vídeo está muito bem feito, permitindo que tenhamos uma boa noção do que foi apresentado. O tema "variação linguística" está sendo bem explorado nas aulas de Língua Portuguesa e, com isso, tem diminuído bastante o preconceito linguístico, que era responsável pelo grande número de alunos que tinham "pavor" das aulas da nossa língua. O curador da exposição usa uma frase muito interessante e que se repete em muitos outros espaços da educação que é "sermos poliglotas em nossa própria língua", o que é fundamental, afinal, o que realmente importa é a adequação de uso das diversas variantes linguísticas. Bom passeio pelas diversas possibilidades da Língua Portuguesa!
 

Como não consegui encontrar o vídeo exibido na exposição completo, transcrevo abaixo todo o diálogo nele contido:


Personagens do vídeo da exposição “Menos – O certo do errado, o errado do certo”.

Norma, a Camaleoa

É preciso saber gramática para falar e escrever bem? É preciso seguir as regras e o vocabulário certo? A língua é um organismo vivo? Língua é poder? Não tem certo e errado, tem o adequado para cada momento? O importante é saber se comunicar? Dentro da própria língua, há tensões e conflitos de visão de quatro sistemas: a norma gramatical, a norma lexical, a norma semântica e a norma discursiva.

No vídeo Norma, a camaleoa, a atriz Alessandra Colassanti, filha dos escritores Affonso Romano de Sant'Anna e Marina Colasanti, encarna as quatro normas da língua portuguesa ao mesmo tempo, apresentando-as e discutindo-as. O encontro fictício das "Normas" se dá no banheiro do museu, que o visitante observa atrás dos espelhos. Entre um retoque de maquiagem e uma ajeitada no cabelo, elas discutem que, ao operar com as regras em nosso cotidiano, podemos selecionar formas aceitas ou formas rejeitadas pela sociedade. Cada sistema abriga tanto o certo quanto o errado.

Mas as normas são quatro ou são uma só? Elas são tudo isso ao mesmo tempo. Elas são quatro em uma, quando uma mesma expressão apresenta problemas oriundos dos quatro sistemas. Elas são uma em quatro, quando o erro vem de um sistema só. De qualquer forma, não há dúvida que Norma é uma camaleoa.

Norma Helena = norma gramatical
Norma Brigite = norma lexical
Norma Lígia = norma semântica
Norma Maria = norma discursiva


DIÁLOGO:

Norma Helena
- Onde eu vim parar! Uma exposição sobre língua portuguesa chamada MENAS?! Só pode ser piada... E de mau gosto!


Norma Lígia
- Quem diria, a língua do povo virou exposição... Antes tarde do que nunca.

Norma Helena
- Você está maluca? Esta exposição relativiza erros do português e você acha isso certo? Nossa língua é muito complexa e as pessoas precisam aprender a falar e escrever direito, com todas as regras. Gramática, minha filha!

Norma Brigite
- As pessoas têm essa ideia de que o português é difícil. Mas isso é uma bobagem. Só prejudica o aprendizado da língua.

Norma Helena
- É uma questão de educação. Quem não tem acesso a uma boa educação não sabe falar e escrever. Isso é um fato.

Norma Brigite
Pelo amor de Deus, não existe língua difícil, senão ninguém falava húngaro, chinês ou guarani. E essas línguas são faladas por milhares de pessoas, inclusive por gente que não sabe ler nem escrever.

Norma Maria (fala ao fundo, ao telefone)
- Menino, você não sabe da maior, isso aqui tá ótimo. Boca livre total, champanhe de graça, comida grã-fina, uma beleza!!!

Norma Lígia
- Elas sabem a língua, do jeito delas.

Norma Helena
- Olha só, como é o seu nome?

Norma Brigite
- É Norma. Norma Brigite.

Norma Helena
-Então presta atenção no que eu estou falando: não existe o sem-terra? Então também existe o sem-língua! É preciso fazer a distribuição da língua portuguesa por meio da escola. Dar a língua aos sem-língua!


Norma Lígia
- Gente, vocês repararam naquele cara de camisa verde com um chapéu panamá? Acho que conheço ele de algum lugar. Ele é o curador da exposição?

Norma Maria
- Não sei. Não conheço ele não.

Norma Helena
- Não o conheço.

Norma Brigite
- Eu também não.

Norma Helena
- Falei “não o conheço”, que é a maneira certa de falar. Não é: “não conheço ele”.  Até porque não foi isso que eu quis dizer. Eu o conheço. Ele é primo de uma amiga minha do clube.

Norma Brigite
- Se ela tivesse escrevendo uma carta, sei lá, pro Papa, aí sim teria que usar o pronome oblíquo, mas falando?! Me poupe!

Norma Helena
- Olha você sabe o que é um pronome oblíquo! Já é alguma coisa, pelo menos não é uma sem-língua...

Norma Lígia
-Mas todo mundo tem língua. Mesmo quem não sabe escrever sabe falar português. Isso você não pode negar.

Norma Maria
- Até porque o termo pra definir quem não sabe escrever é analfabeto, mas não existe uma palavra pra designar quem não sabe falar. A fala é natural, a escrita não.

Norma Brigite
- Mas é isso mesmo, a língua é mutante...
Norma Helena
- A língua não é um mutante coisíssima nenhuma, ela tem regras. É para isso que existe a gramática: fixar as regras. Por isso que aprendemos português na escola.

Norma Brigite (olhando-se no espelho)
- Meu cabelo tá horrível...

Norma Lígia
- Relaxa... Com esse tempo, não tem cabelo que resista.

Norma Maria (para provocar Norma Helena)
- Tá se achando a dona do português, é? Gramática não é tudo na vida, não. Ninguém manda no português, o português é do povo!

Norma Maria (para Norma Brigite)
- Bunito, seu cabelo!

Norma Helena
- Fala direito, moça. Não é bunito, é bonito. E o cabelo dela pode ser muito radical, mas não é exatamente bonito.

Norma Lígia
- A língua é um organismo vivo, a própria gramática aos poucos vai absorvendo os usos do que se fala.

Norma Brigite
- Como já dizia o grande Raul Seixas: “Não tem certo nem errado, todo mundo tem razão. O ponto de vista é que é o ponto da questão”.

Norma Brigite
- Taí uma coisa em que a escola tá errada: o professor às vezes obriga o aluno a falar do jeito que se escreve, brigando com quem fala bunito, muleque, bêjo ou iscada. Mas isso é um fenômeno de variação fonética, existe em toda língua.

Norma Lígia
- O justo seria dizer que a pessoa pode falar bunito, mas tem que escrever bonito. Até porque o sentido dos dois é o mesmo.

Norma Helena
- Falando em sentido, eu sinto muito, mas as coisas têm que ser exatamente como elas são.

Norma Lígia (indicando que a norma semântica se preocupa com os significados do que se diz e do que não se diz)
- Mas a vida não é assim, a vida é uma adolescente inconstante, que muda o tempo todo para se adaptar às situações.
Norma Brigite
- É que nem a partitura de uma música, que é uma indicação, mas cada músico toca de um jeito diferente.

Norma Helena
- Por favor, vocês são todas anarquistas. É preciso saber GRAMÁTICA para falar e escrever bem! É preciso seguir as REGRAS e o vocabulário certo.


Norma Brigite
- Isso não é totalmente verdade. As palavras e mesmo as estruturas gramaticais inventadas têm espaço na literatura. Eu amo Guimarães Rosa e o que o cara mais fez foi inventar palavra...

(Norma Brigite e Norma Lígia citam palavras “inventadas” por Guimarães Rosa em tom de brincadeira.)

Norma Lígia
- “Ufanático”, “bramosa”...

Norma Brigite
- “Chuchurro”, “mirifácia”...

Norma Lígia
- “Druxo”...

Norma Brigite
- “Tutaméia”...

Norma Lígia
- “Pirlimpsiquice”, “Hitlerocidade”...

Norma Brigite
- “Embriagatinhava”... Falar é muito perigoso!

Norma Lígia
- Mas pode ser muito divertido também.

Norma Lígia
- As primeiras gramáticas do ocidente, as gregas, só foram escritas no século II antes de Cristo, mas muito antes disso já existia na Grécia uma literatura ótima e superelaborada, como a Ilíada, a Odisséia, os diálogos de Platão.

Norma Brigite
- A gramática vem depois da língua. É uma consequência da língua e não o contrário.

Norma Maria (falando no telefone)
- Boa noite, doutor Vieira, o senhor conseguiu checar os documentos que deixei sobre a sua mesa? Claro. Exatamente. Farei isso amanhã. (pausa) Não se preocupe. Impreterivelmente. Claro. Boa noite.

Norma Helena (para Norma Maria)
- Diga-me uma coisa: se você sabe falar direito, porque fala errado?


Norma Maria
- Não tem certo e errado. Tem o adequado pra cada momento. Eu não posso falar com meu chefe, o desembargador, como eu falo com vocês. E também não preciso falar com vocês do mesmo jeito que eu falo com ele. Aqui, eu escolhi o registro popular, justamente porque estamos num banheiro. Isso é meio óbvio, não é?

Norma Lígia
- Claro, são tipos diferentes de registro. O formal e o informal.

Norma Brigite
- E o banheiro é informal.

Norma Maria
- E você tem que saber em que momento pode usar cada um deles. E isso é uma coisa intuitiva.

Norma Lígia
- É verdade, eu escrevo livro pra criança e elas sabem direitinho quando podem falar mais livremente e quando têm que falar mais sério. Não precisa explicar.

Norma Helena
- É, pode ser. Finalmente estamos concordando.

Norma Brigite
- E o legal é que isso tá bem refletido nessa exposição. Até eu consegui entender.

Norma Lígia
- Que bobagem, por que você não ia entender? Quando você fala assim, fica subentendido que você nunca entende nada.

Norma Maria
- O importante é saber se comunicar. Afinal, como dizia o Chacrinha, quem não se comunica...

Norma Brigite
- Se trumbica!

Norma Lígia
- Falar dentro da norma culta seria um bônus, não uma obrigação. Pelo menos é assim que eu vejo.

Norma Brigite
- Até porque a norma culta de hoje também já foi diferente, a língua que falamos atualmente é uma consequência de várias línguas que formaram o português, desde o início. (pausa) Preciso fazer xixi de novo.

Norma Helena
Não foram tantas línguas assim. A base do português é o latim, que chegou com o Império Romano.

Norma Lígia
- É, mas a gente tem palavras do árabe, por causa do domínio árabe sobre Portugal, tem palavras germânicas...

Norma Maria
- Isso é a prova de que a língua evolui!

Norma Lígia
- Não dá pra forçar uma barra, engessar a língua. Porque ela é justamente um fluxo contínuo, um rio caudaloso!

Norma Brigite
- Nossa, que lindo isso!

Norma Maria
- Ai, meninas, o papo tá muito bom, mas eu acho que vou voltar pra lá. Quero assistir o vídeo da exposição.

Norma Helena
- Assistir ao vídeo da exposição, você quer dizer. Ou por acaso você acha que ele está precisando de ajuda?

Norma Lígia
- É que esse “assistir” transitivo direto que você usou pode significar ajudar mesmo, dar assistência...

Norma Brigite
- Ai, gente, não adianta, o professor pode obrigar o aluno a copiar quinhentas mil vezes a frase: assisti ao filme. Quando ele puser o pé fora da sala, ele vai dizer ao amigo: ainda não assisti o filme do Sherlock Holmes.


Norma Lígia
- É que a gramática brasileira não sente necessidade da preposição, que era exigida na norma culta há séculos.

Norma Maria
- Se você diz “o filme foi assistido” na voz passiva é porque a língua já toma o verbo como transitivo direto. É a mesma coisa que você querer falar, ainda hoje, do jeito como foi escrita a Carta do Pero Vaz de Caminha...


Norma Lígia
- A verdade é que saber uma língua abre horizontes, amplia as possibilidades simbólicas que uma pessoa tem pra enxergar a vida.

Norma Helena
- Mas não basta saber falar. É na sintaxe dominante que são escritos os contratos e as leis, uma prova de que a língua é poder.

Norma Brigite
- A gente não tá dizendo que não se deva aprender a norma culta do português. Saber as regras é ter mais opções de uso da língua, o que é importante em muitos momentos.

Norma Maria
- Bom, quanto mais opções o sujeito tiver de usar a língua, mais ele vai poder se desenvolver como cidadão.

Norma Lígia
- Meninas, a gente tá nesse banheiro há horas. Vamos voltar pra exposição?

Norma Maria
- Puxa, eu gostei tanto de vocês. Vamos marcar de se ver outro dia?

Norma Helena
- Olha, eu apesar de tudo também gostei de vocês. Mas deixa eu dizer uma coisa: nós vamos marcar de nos ver. “Vamos marcar de se ver” é uma mistura de pessoas na mesma frase.

Norma Brigite
- Ai, tá bom, vamos marcar de nos ver, então.


(Todas riem e tiram seus acessórios de caracterização)

sábado, 14 de setembro de 2013

A competência linguística como fator de promoção social


O principal papel da escola é educar e preparar seu aluno para o exercício da cidadania, ou seja, formar um cidadão ativo e transformador da sociedade, e mudanças importantes têm acontecido nos paradigmas didáticos para que se possa alcançar esse objetivo. O professor deixou de ser um mero transmissor de saber para um aluno que era visto como um simples depositário de informações. O aluno agora traz para a sala de aula seu conhecimento de mundo e seu saber linguístico.

Um dos principais paradigmas rompidos diz respeito à abordagem da língua como um bloco homogêneo, em que o conjunto de regras configurava-se como uma espécie de lei que regulava o uso da língua “correta”, considerando-se “erros” as outras possibilidades existentes nas demais variedades da língua. O professor Ataliba Castilho chama a atenção para o fato de que essa atitude preconceituosa por parte do professor impossibilitava que houvesse uma relação de confiança entre professor e aluno, o qual se sentia excluído.

Com essa nova prática de ensino-aprendizagem, que explora a questão da “adequabilidade e aceitabilidade”, que são indissociáveis, houve grande redução da discriminação e do preconceito linguístico. Termos de adequar nosso linguajar às diversas circunstâncias sócio-comunicativas que norteiam nossa vida. A prática linguística nos mostra que existem contextos em que o uso do tom coloquial se faz necessário, assim como existem outros em que não nos é permitido esse posicionamento.

Por outro lado, como afirma Fiorin a norma padrão, a língua do Estado que é ensinada na escola, deve ser dominada pelo aluno, mesmo que as outras variedades de uso não sejam mais vistas como “erros”, pois o domínio da linguagem culta possibilita a promoção social do aluno. Portanto, a partir da língua falada pelo aluno, deve-se promover o ensino da norma culta, fazendo com que ele tome consciência das variedades linguísticas existentes nas diversas esferas sociais, regionais, geracionais ou situacionais, entre outras, bem como possa se preparar para usar a variedade da língua que é obrigatória em determinadas esferas de circulação de textos.

Assim sendo, deve-se respeitar o saber linguístico prévio do usuário da língua, mas não se deve privá-lo do direito de ampliar, aprimorar e variar esse patrimônio linguístico inicial. Em outras palavras, a língua padrão, dita norma culta, não é considerada pelos linguistas nem melhor nem pior que a linguagem popular usada pelos falantes em suas diversas possibilidades variacionais, pois ambas constituem variantes linguísticas válidas e o aluno deve sentir-se capacitado a circular e comunicar-se adequadamente nas diversas esferas da sociedade.

Cássia Durigan


Com vocês: Ferreira Gullar e Adriana Calcanhoto

Traduzir-se
  
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?


De Na Vertigem do Dia (1975-1980)